“A Leica de Medeiros resolveu mergulhar”

[Notícia do Público] José Medeiros é um dos nomes maiores do fotojornalismo brasileiro do século XX que a Europa começou a descobrir. As exposições Crónicas Brasileiras e O Rio É Uma Festa estão agora em Lisboa.

A moça vem de tomar um banho de mar e corre meio embaraçada. Esconde a cara, enquanto um pedaço de onda, lá atrás, fica para sempre por rebentar na espuma. A moça tinha pedido uma pausa durante um trabalho. Mas o fotógrafo avançou no areal e ofereceu-nos um extraordinário momento, daqueles em que somos mais aquilo que somos, uma imagem cheia de ocasião, plena de contacto, apesar de quem vemos não querer ser visto.

José Medeiros tinha cumprido a “pauta”, o guião que lhe tinham encomendado para a revista O Cruzeiro (1928-1975) sobre o que era a vida de uma rapariga de 15 anos no Rio de Janeiro, em meados dos anos 50. Só que o seu instinto, uma queda para a subversão e um enorme talento levaram-no até esta fotografia, que acabaria por não ser publicada na reportagem. Talvez por ser demasiado espontânea, livre, como o fotógrafo que a tirou, um dos nomes maiores do fotojornalismo brasileiro do século XX que a Europa começou agora a descobrir, graças às exposições Crónicas Brasileiras e O Rio É Uma Festa, que depois de terem estado em Paris, podem ser vistas em Lisboa, na Fundação Portuguesa das Comunicações (FPC) e no espaço BES Arte & Finança (BA&F), no âmbito do Ano do Brasil em Portugal. O conjunto das duas mostras inclui quase 200 imagens, reproduzidas a partir dos negativos originais que estão à guarda do Instituto Moreira Salles (IMS), Brasil, fiel depositário do acervo do fotógrafo.

A obra que José Medeiros (1921-1990) produziu na fotografia durante os anos 40 e 50, vertida essencialmente naquela era uma das grandes revistas ilustradas do país, atravessa dois mundos muito distintos, mas ao mesmo tempo indissociáveis, se se quiser compreender a marcha de um país em ebulição rumo a uma ideia unificadora, um país “a sonhar moderno”, ao mesmo tempo que procura autenticidade nas suas raízes culturais. Medeiros concretiza visualmente muitas das grandes questões lançadas pelos intelectuais brasileiros dos anos 30. Por um lado, regista, em tronco nu ou maltrapilho, o papel do negro na sociedade brasileira, a cultura afro-brasileira, a transformação do mundo agrário, o progresso, a ideia de nação, o folclore, a herança cultural. Por outro, já aprumado de fraque e brilhantina, mistura-se na festa imensa que foi o Rio de Janeiro dos anos 50, onde passam diante da sua lente figuras de sonho, langorosas e indolentes vedetas, socialites no Jockey Club, bailes de fantasia e coquetéis à beira da piscina.

Certo é que nos dois universos José Medeiros revela uma capacidade excepcional para captar figuras humanas no seu meio, num estilo visual que anda muito perto da vanguarda da época (composições radicais, luz natural, ângulos ousados, procura do corpo, da expressão facial e da força das linhas gráficas) e adoptando uma postura que procura a objectividade, na senda do que faziam as novas gerações de fotógrafos ligadas a títulos internacionais como a norte-americana Life, ou as francesas Vu e Paris Match. “Medeiros tinha empatia pelas questões que fotografava. Traz para à revista o que a revista nunca traria ou traria de outra forma”, diz ao PÚBLICO Sergio Burgi, que com Élise Jasmin comissariou as duas exposições. Para Burgi, coordenador do Departamento de Fotografia do IMS, Medeiros constrói uma marca autoral dentro da revista (e fora dela) inspirada pelas correntes humanistas, mais engajada e influenciada sobretudo pelos movimentos do pós-guerra, pela actividade da cooperativa de fotografia Magnum e a trajectória de fotógrafos como W. Eugene Smith na Life, que se batiam “pela possibilidade de realizar trabalhos que demonstrassem uma visão do autor, tentando preservar esse cunho no contexto editorial de uma publicação”. Na revista O Cruzeiro, que, apesar de piscar o olho às suas congéneres europeias, raramente colocava uma reportagem como tema principal de primeira página, José Medeiros, ao lado de Luciano Carneiro, foi um dos protagonistas do embate entre os que defendiam as abordagens mais sensacionalistas e aqueles que, como ele, preferiam uma postura mais documental.

À procura das origens

A origem nordestina de José Medeiros (nasceu em Teresina, Piauí) não é alheia ao seu interesse constante por temas que estão deslocados daquele que era na época o grande centro de poder no Brasil, o Rio de Janeiro. Em Crónicas Brasileiras estão reunidas imagens que procuram as origens e os ritos de um país ainda às voltas com a construção de identidade. Nas fotografias de tribos da Amazónia revela-se um enorme deslumbramento pelo corpo, e numa ou noutra ocasião surge o embate entre os dois mundos que estavam nos antípodas e que começam a tocar-se, como acontece literalmente na imagem de um índio yawalapiti junto da hélice de um avião (Serra do Roncador, Mato Grosso).

Nestas derivas rurais de que Medeiros era particularmente adepto – segundo Burgi, telefonava ao responsável da revista na Baía para este lhe ligar de volta a convidá-lo para trabalhos, como desculpa para tratar temas de interesse pessoal naquela região -, realiza imagens onde estão presentes o trabalho, as paisagens onde se inclui o homem, o quotidiano popular das feiras e do lazer. Dentro deste núcleo de imagens, patente na FPC, encontra-se ainda aquela que é uma das mais marcantes reportagens fotográficas de José Medeiros, Candomblé, realizada em reacção a um trabalho sobre o mesmo tema da Paris Match, publicado em Maio de 1951 com o título “As possuídas da Baía”, que causou indignação. A maneira “superficial” com que a revista francesa tratou aqueles rituais afro-brasileiros levou os responsáveis de O Cruzeiro a enviarem para Salvador da Bahia José Medeiros e Arlindo Silva, que se encarregaria do texto. Os dois conseguem (com dificuldade) acesso a uma cerimónia de iniciação de três filhas-de-santo no Terreiro de Oxóssi, a troco do pagamento dos custos de uma cerimónia que tinha a sua dose de secretismo. Em Setembro de 1951, o trabalho é publicado com o título “As noivas dos deuses sanguinários”. A revista manda imprimir 300 mil exemplares onde as fotografias de Medeiros são editadas e paginadas de forma a causar grande impacto visual. Numa altura em que “a imagem era mais importante do que o texto”, as fotografias de Medeiros provocaram polémica na Bahia por revelarem pormenores do rito. Anos mais tarde, em 1957, numa espécie de tentativa de redenção, Medeiros decide republicar imagens do mesmo ensaio naquele que foi o seu único fotolivro. A obra, que faz parte das escolhas do crítico e comissário espanhol Horacio Fernández na compilação El Fotolibro Latinoamericano, tem uma edição de imagens sóbria e despida de qualquer juízo de valor.

Em O Rio É Uma Festa (BA&F) a atitude documental de José Medeiros, próxima do indivíduo, não varia muito em relação a trabalhos menos glamourosos. Nas séries apresentadas, a celebração, o êxtase e a exuberância são o epicentro e o motor de uma cidade em frenesi absoluto. É “a idade de ouro” onde as festas, a vida nocturna, a areia no corpo e calçada ondeante da beira da praia aparecem com frequência.

Em ambiente urbano, Medeiros, que a partir de 1965 começou a dedicar-se ao cinema, tornando-se num dos mais reputados directores de fotografia do Cinema Novo brasileiro, é hábil a explorar as linhas de força na composição, mas é sobretudo no retrato e no jogo de proximidade com o sujeito que o seu talento mais se revela. Isso e uma sensibilidade ímpar para encontrar nos momentos menos óbvios aquilo que é mais revelador, como a ansiedade estampada na cara de um rapazinho na bancada do Maracanã, na final maldita do Mundial de 1950 que o Brasil haveria de perder para o Uruguai. “Uma reportagem fotográfica é uma operação conjunta dos olhos, coração e inteligência. Fotografamos o que vemos e o que vemos depende do que somos”, dizia José Medeiros, que aprendeu as bases do ofício com o pai, fotógrafo amador.

No imenso caldeirão social em que se tinha transformado o Rio, o fotógrafo de O Cruzeiro regista todo o tipo de manifestações públicas, erguendo uma poderosa crónica visual da sociedade carioca da época, onde tanto entram as festas do Copacabana Palace e os playboys mais abastados, como as festas populares da escola de samba da Estação Primeira da Mangueira e a conversa de ocasião no botequim da esquina.

Em qualquer um dos universos, muitas vezes os repórteres também eram protagonistas e parte da história relatada. José Medeiros era uma “estrela” da revista, um dandy por vezes promovido nas páginas de O Cruzeiro. Como na reportagem “O primeiro domingo de Verão no Arpoador”, de Janeiro de 1955. É um texto escrito “como se o autor tivesse tomado dez caipirinhas na praia (Burgi)”, revelador do espírito “sempre em festa” da altura, que inclui uma chamada a meio que diz: “A Leica de Medeiros resolveu dar um mergulho. Vejam o resultado.”

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