Quarteto e dueto em Curitiba

[Excerto de texto de Alexandra Lucas Coelho no Público de hoje] O dueto veio do Porto, com computadores e iPhones. O quarteto de Lisboa, com violinos, viola, violoncelo. Estão num dos maiores festivais de música do Brasil, dirigido por um português

Domingos tira os auscultadores, recosta-se na cadeira, eufórico: “Que legal! Já posso compor para as minhas danças!” No écrã à sua frente giram as formas coloridas do que compôs nos últimos minutos. A música sai pelas colunas, uma batida cheia de groove. Coreógrafo e formador de professores em Curitiba, Domingos, acaba de experimentar uma das invenções do projecto português Digitópia, integrado na Casa da Música.

Um dueto veio do Porto para dez dias de workshops neste Paço da Liberdade, antiga sede da prefeitura a caminho dos cem anos, o que aqui já vale como antiguidade. Curitiba é uma capital de arranha-céus, trânsito fluido, sete cores para reciclagem, com espírito de cidade pequena, branca, pouco tropical: 15 graus menos que no Rio de Janeiro.

O dueto da Digitópia – José Carlos Gomes, compositor, Artur Carvalho, engenheiro convertido a percussionista e animador, – não imaginara o Brasil assim, e com razão. A semelhança com o resto do Brasil aparece de relance, no cimo dos prédios grafitados, no mulato de cabeça caída entre canteiros de flores viçosas.

A Oficina de Música de Curitiba vai na sua 31ª edição, quinta dirigida pelo maestro português Osvaldo Ferreira, primeira com tantos participantes portugueses, por ser o Ano de Portugal no Brasil. Os workshops da Digitópia fazem parte do programa e não exigem dos alunos nenhum instrumento ou conhecimento musical. José e Artur trouxeram os quatro computadores que estão em cima da mesa e os cinco iPhones que estão no chão, cercados por cinco cadeiras.

“Temos uma orquestra de iPhones”, explica José, 29 anos, barba negra de respeito. “É para fazer aquecimento e experimentar processos de criação. Vamos usando um software a cada dia e vai ficando mais complexo.” Em geral gratuitos, esses programas podem ser descarregados da Apple, no caso dos iPhones, ou no site da Casa da Música, no caso do software para computador inventado pela própria Digitópia.

Enquanto na mesa dos computadores Artur assiste Domingos e Marilene, os inscritos desta manhã, José pega num dos iPhones e mostra o programa Bowls, uma sequência de taças e sinos tibetanos que podem ser percutidos de diferentes formas apenas com um dedo.

“O fim nunca é a tecnologia, é a música”, ressalva. “Quando estivermos com músicos, vamos misturar iPhones com violinos. São processos de improvisação colectiva. Por exemplo, o que estamos a ouvir agora nas colunas é a fusão do que eles os dois estão a compôr.” Domingos e Marilene, ambos formadores de professores. O segundo workshop da Digitópia em Curitiba será com músicos e o terceiro com crianças e famílias. “São dez dias ao todo, sábado e domingo incluídos.” Sempre de manhã. “E à tarde temos a sala aberta ao público. Ontem tivemos isto cheio.”

Iniciada em 2007 no Serviço Educativo da Casa da Música, a Digitópia desdobrou-se em “variações de variações”. A orquestra de iPhones é apenas uma delas. O programa em que Domingos e Marilene estão a trabalhar, Políssonos, tem uma relação com a matemática.

Artur, habituado a fazer isto e muito mais em bairros e contextos difíceis do Porto, põe a repórter diante dos seis círculos do Políssonos, cada um correspondente a um instrumento, a escolher de uma longa lista. Com um clique do rato é possível construir sequências de sons, dois, três, quatro e por aí fora, que vão corresponder a figuras geométricas (rectas, triângulos, quadrados, e por aí fora), que se vão cruzar com as sequências dos outros instrumentos, à velocidade desejada.

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