Patrões apontam os três mercados de maior potencial de crescimento para cinco sectores

[Notícia do Jornal de Negócios de hoje] O Negócios pediu aos responsáveis de cinco sectores de grande peso nas exportações nacionais que elencassem o top 3 dos mercados com maior potencial de crescimento para as empresas nacionais. Não sob a perspectiva de onde já estamos instalados, mas onde as PME que agora começam a exportar ou estão a solidificar uma posição podem investir. Conheça ainda os produtos portugueses em que a aposta pode ter melhores resultados.

Construção. África minha

A construção agoniza em Portugal com quebras de volumes brutais, fecho de empresas e despedimentos em catadupa. Talvez mais do que em qualquer outro caso, o futuro do sector construir-se-á lá fora. Nos últimos dados que a Federação Portuguesa da Indústria da Construção e Obras Públicas (FEPICOP) dispunha fora de Portugal a facturação das empresas alcançou 8,7 mil milhões de euros. Há pelo menos dois dados relevantes, África vale 75% deste valor e Angola metade desta parcela. Entre os países europeus, só a França factura mais neste continente. Por isso, o presidente da FEPICOP, Reis Campos, identifica para o futuro a continuação da exploração destes mercados. Em Angola, há as obras públicas e a construção de um milhão de casas. Em Moçambique, são as infraestruturas, com os portos e a ferrovia a dominar.

Dissonante neste contexto, só o potencial do mercado francês. Reis Campos aponta como “uma tendência recente”, que poderá favorecer unidades com perfil muito especializado em instalações eléctricas, carpintaria, serralharia e reabilitação de edifícios. Há 18 anos, no mercado internacional, o grupo Casais, sedeado em Braga, afirma que neste processo há muito mais do que negócio. Para lá chegar, é preciso ultrapassar problemas que não se esperavam, nomeadamente os culturais. Há uns anos, criou um consórcio para o mercado chinês com outra empresa do sector e uma especialista na gestão de centros comerciais falhou por essa razão. Do erro resultou numa maior atenção em relação às escolhas das geografias. Para quem agora chega, o líder da construtora deixa um aviso. “Para se ir para fora ou se tem um porta-aviões, ou se vai num emprestado. Nós começámos na Alemanha assim, através da ajuda de uma empresa concorrente”, explica António Carlos Rodrigues.

Metalurgia. Europeu mais barato

O sector da metalomecânica e da metalurgia tem um grande peso relativo nas exportações nacionais. Segundo o vice-presidente da associação do sector (AIMMAP), Rafael Campos Pereira, em 2012 as vendas para o exterior devem crescer 7% e atingir os 13 mil milhões de euros, sensivelmente um terço do total do que Portugal exporta. Há ainda uma tendência que deve ser vista com atenção. O sector já incorporou a necessidade de explorar novos mercados, não só ao nível do discurso mas da acção. No ano passado, os mercados não europeus subiram 11 pontos percentuais, e representam gora 30% do total. Ao olhar para o futuro, e para o mercado, Campos Pereira, elege o Magrebe com a Argélia no comando, a Colômbia, e os países do Golfo Pérsico como mercados de maior potencial. “Aí os produtos portugueses são olhados como europeus. Não somos europeus de segunda, mas o preço também nos torna mais convidativos”.

O representante da AIMMAP dá ainda uma lista de três produtos que se podem destacar: tecnologias de produção (máquinas de ferramentas), os artigos de casa (louça e cutelaria); e as peças técnicas (componentes). Uma das empresas em destaque no sector é a Metalogalva, unidade da Trofa, que trabalha peças para a área da energia, da iluminação e das telecomunicações. A expansão internacional começou através de um contacto em França. O CEO Sérgio Silva frisa a necessidade de pensar “local” e contratar nativos para desbloquear o crescente “proteccionismo”. O empresário fala ainda da necessidade de dar a conhecer Portugal. “Muitos dos nossos clientes depois de aterrarem no Porto vão acabar por fazer uma encomenda. Mas nem imaginam que em Portugal possa haver uma fábrica da nossa dimensão e com a nossa qualidade de produto”, refere.

Agro-Alimentar. Crescer nos emergentes

O Agro-alimentar é um sector tão heterogéneo que não é fácil ser absolutamente liminar na apresentação de mercados e produtos potenciais. Ainda assim, o Negócios contou com a capacidade de sistematização do presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA), Jorge Henriques. No produto, o responsável não tem dúvidas, os portugueses não têm percepção, mas estão ao nível “do melhor que se faz pela Europa”. E aponta cinco segmentos em que há grande potencial de crescimento: o vinho, o azeite, as conservas de peixe, os concentrados de tomate, e os frescos. Nos países de destino põe Angola, Moçambique e Brasil no topo. O país banhado pelo Índico pode mesmo ser a porta de entrada para os países da África Austral. Já o mercado brasileiro será muito importante para os sumos e águas gaseificadas, tal como hoje já é para o vinho e azeite. Os PALOP serão fortes, mas Henrique diz que no caso do azeite, por exemplo, a Ásia (China) será incontornável.

Com séculos de tradição na exportação de vinhos, a José Maria da Fonseca, chega hoje a todos os continentes, com excepção da Oceânia. O vice-presidente da empresa, António Soares Franco, põe a tónica do discurso não no produto mas na estrutura. E explica porquê. “Fazer vinhos bons ou razoáveis é relativamente fácil, o problema é conseguir vendê-los”, defende. “A estrutura comercial é fundamental. Tal como em outros negócios, o problema é vender”, assume, colocando uma questão: “O que é que vai fazer com que o meu importador coloque as minhas garrafas não nas prateleiras de baixo, mas ao nível dos olhos?”.

A falta de uma estratégia global para a promoção também não ajuda que a marca Portugal se distinga na opinião deste empresário. Ao nível das dificuldades, Franco deixa um “outlook” negativo para o mercado inglês em que é cada vez mais difícil entrar ou estar. “Quanto mais se vende, pior. A distribuição quer sempre manter ou baixar os preços, sendo que o Governo aumenta constantemente os impostos. Quem paga é o produtor”, remata.

Calçado. Envelhecimento é vantagem

O calçado é, por muitos, visto como a coqueluche das exportações portuguesas, em parte pela transformação paradigmática que fez para combater a hecatombe que enfrentou depois dos colossos mundiais terem deixado de produzir em Portugal. 2012 foi o ano recorde nas exportações do de sapatos. Paulo Gonçalves, porta-voz da associação do sector (APICAPPS), aponta os caminhos do futuro, um dos quais aproveita uma tendência demográfica. “O segmento do calçado de conforto tem muito potencial nos próximos 20 anos, porque a população na Europa está a ficar mais velha”, sublinha o responsável. O calçado de luxo de homem e mulher é outra aposta, bem como os desafios de um mercado de grande potencial como é o norte-americano. Tradicionalmente um país difícil para os sapatos lusos por preferir o calçado desportivo.

Agora há margem para impor o produto português. Na China (maior produtor do Mundo) em que se estima haja 3% da população disposta a comprar produtos de valor acrescentado, “já há empresas portuguesas a conseguir trabalhar com parceiros locais”. A exportar há 24 anos, o presidente da Savana, unidade de Felgueiras especializada em sapatos para criança, diz que há agora mais dificuldades em exportar. “Na Europa cada vez se consome menos, e em países emergentes á não podemos competir pelo preço”, avança Jorge Fernandes. Ir para mercados longínquos tem um problema, resume o empresário, é que para “vender só 1.500 pares ou se tem uma grande margem, ou então há prejuízo”. “Uma semana em Moçambique pode custar 5.000 euros”, especifica. Para Jorge Fernandes é agora mais importante estar atento ao que os mercados querem. “Temos um designer que estuda os novos destinos, e quando vamos aos clientes já levamos um produto direccionado”, finaliza.

Serviços. Revolução tecnológica

Quais os mercados de maior potencial de crescimento? João Vieira Lopes, da Confederação Portuguesa de Comércio, dispara: “O grande potencial está, neste momento, nos países fora da Europa. O mercado africano tem neste momento muitas oportunidades, sobretudo para as tecnológicas”.

Moçambique e Colômbia aparecem como outros países em destaque, sendo que este responsável fala da exportação de projectos de arquitectura e engenharia, na gestão hoteleira, e nas novas tecnologias, especialmente no software de gestão como as áreas em que Portugal mais se pode destacar. Dentro deste subsector, a Associação Portugal Outsourcing destaca os processos de negócio de base tecnológica e de desenvolvimento/gestão aplicacional, por exemplo, nas áreas da saúde, da banca, das “utilities” e telecomunicações, bem como em particular dos serviços públicos informatizados – “eGovernment” -, área na qual Portugal é líder mundial. São estes os produtos com maior potencial de crescimento.

Vieira Lopes deixa, no entanto, ainda uma critica sobre a aplicação do dinheiro do QREN que “culturalmente” é muito mais direccionado para a indústria e para o produto, bem como o financiamento bancário que é mais difícil para estas empresas. Na área das novas tecnologias, a Vision Box tem-se afirmado como uma referência, ao estar hoje presente nos aeroportos de quase todos os países da Europa, com a sua solução biométrica para acesso de passageiros. Muito centrado em projectos da área governamental, a atenção aos mercados é muito importante. Mas há um problema que se tem acentuado. “Há países cada vez mais proteccionistas. Em França, o governo só á projectos a empresas francesas e na Alemanha é igual”, especifica o CEO da empresa lisboeta, Bento Correia.

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