Roberto Matta: um elo esquecido

[Notícia do Público] Na Galeria Millenium, pinturas e esculturas do chileno transportam-nos para um momento central da pintura do século XX.

Alegría-Matta-Alegría, exposição de 17 pinturas e seis esculturas de Roberto Matta (1911-2002) patente na Galeria Millenium, em Lisboa não pretende devolver ao artista chileno a visibilidade e a importância que teve nas décadas de 1940 e 1950. Mas merece uma visita pelo (re)encontro com um percurso individual determinante para a pintura do pós-guerra.

Hoje sem a mesma visibilidade que a de outros companheiros de percurso (Ashley Gorky, Max Ernst ou André Masson), foi um artista influentíssimo. Estudante de arquitectura, considerado discípulo de André Breton, afirmou-se a partir de 1941, durante o exílio nos EUA. Uma individual na Galeria Julien Levy, onde expôs ao lado de esboços de Pinóquio, de Walt Disney e, sobretudo, um conjunto de workshops, frequentados em Nova Iorque por Jackson Pollock e Robert Motherwall, valeram-lhe um tão fulgurante reconhecimento que alarmou e irritou Breton.

Organizada pela Casa da América Latina, Fundação Millennium bcp e a Embaixada do Chile, Alegría-Matta-Alegría não exibe esse choque. As obras são, quase todas, dos anos 1990 e mostram um artista entretido com o seu “estilo”; só Les Juges Partent en Guerre, de 1967, inspirado pelo clima político dos anos 60, e com um humor em sintonia com as diabruras dos Imagistas de Chicago, rompe com o aparente e lúdico auto-comprazimento. Ainda assim, nas esculturas de bronze podemos imaginar as figuras biomecânicas, meio monstros, meio máquinas, que por volta de 1937 terão impressionado Breton. E nas telas (Les Travailleurs de la Mère e Oú Nous, Suis) as mesmas centelhas da energia que fascinou Motherwell (que em 1941 acompanhou o chileno numa viagem de seis meses ao México) Pollock e Ashley Gorky nos anos 1940. Uma energia que partindo da modelo da pintura surrealista (mundos oníricos e figuras monstruosas em lugares dominados pela autoridade da perspectiva) excitava os exercícios do automatismo com a luz, a cor e a gestualidade. Uma nova escola nasceria, incitada pelas “experiências” de Matta: o abstracto-expressionismo.

Expulso do grupo surrealista, Matta viria a construir um percurso entre a América e a Europa indiferente a correntes, e comprometido com causas sociais e políticas, mas o elo que estabeleceu entre o Surrealismo e o abstracto-expressionismo foi o seu maior contributo para a arte do século XX (se descontarmos a paternidade de Gordon Matta-Clark). Que o seu caminho ulterior tenha sido obscurecido por essas narrativas não deixa de ser irónico. Mas no fim é isso que Alegría-Matta-Alegría tenta combater sem pretensões. Isto é, recordar, como escreveu o historiador de arte Meyer Schapiro, a existência da “tela com um campo de prodigiosa excitação, energia livre, vermelho brilhante e amarelo contra cinzentos frios, um novo futurismo do orgânico”.

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