“É preciso fazer um caminho de redescoberta no Brasil”

[Notícia do Diário Económico] O ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares desafiou as empresas a investirem no Brasil.

Miguel Relvas destacou turismo e a cultura como sectores onde Portugal deve investir no Brasil. “Dos brasileiros que viajam na TAP só cerca de 5% fica em Lisboa, portanto temos um potencial de crescimento. Podemos dizer que, olhando para cada um dos aviões da TAP, há mais 95% para conquistar, está nas nossas mãos”, disse o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, frisando que o Estado tem aí um papel “decisivo”, através das Regiões de Turismo e do AICEP, como entidades que devem ser “capazes de vender Portugal aos brasileiros”. Reconhecendo o desconhecimento dos brasileiros em relação a Portugal, o governante defendeu que há “um caminho de redescoberta”, que deve ser feito sobretudo no plano comunicacional.

“E o mesmo se passa no sentido oposto. Mais do que a relação entre os países da CPLP (Comunidades de Países de Língua Oficial Portuguesa), há um longo caminho de reflexão e aprofundamento na relação bilateral”, afirmou o ministro, defendendo que as relações das sociedades é muito mais forte do que as relações institucionais. Relvas escolheu o exemplo da TAP, empresa cuja situação deve importar da mesma forma a Portugal e ao Brasil: “A TAP é uma empresa verdadeiramente luso-brasileira, há 77 voos por semana entre Portugal e o Brasil. Todas as cidades brasileiras têm acesso à Europa a partir da TAP, o nordeste brasileiro, Brasilia, o Sul do Brasil. Portanto o caminho e as opções tomadas também interessam a este lado”.

Considerando que, “há um longo caminho de reflexão e aprofundamento na relação bilateral, Relvas defendeu que muitas vezes isso não acontece “porque muitos dos empresários não vêm ao Brasil ou têm de vir mais” e de­safiou as empresas de distribuição “que tiveram más ex­periências” no Brasil e saíram – como a Jerónimo Martins e a Sonae – a voltarem.

Relvas alertou ainda para o facto de o Brasil ser um mercado com vários mercados dentro, em que cada região tem características distintas e obriga a. aproxi­mações diferentes.

Entrada no mercado brasileiro já é difícil, mas não é impossível

Para o presidente do BESInvestimento há muitas oportunidades para as empresas portuguesas.

José Maria Ricciardi rejeita a ideia de que os portugueses depositam demasiada esperança no Brasil. “Não, acho que não. É evidente, não vamos esconder, que o Brasil tem em muitos aspectos uma atitude muito protecionista. Veja-se o que se passou com a questão dos azeites e dos vinhos”. Mas, acrescenta, esta política não tem só a ver com Portugal, tem a ver as relações entre a União Europeia e o Mercosul, onde está incluído o Brasil”.

“O Brasil tem um potencial muito grande para as nossas empresas, mas, depois, há outro aspecto – e nesse o BESI tem participado directamente – que é a internacionalização das empresas no Brasil. E isto é muito importante porquê? Porque quando temos o mercado doméstico em retracção, uma das formas de sustentar a actividade e o emprego em Portugal é garantir que essas empresas conseguem entrar noutros mercados”, salienta o presidente do banco de investimento do Grupo Espírito Santo.

“É preciso consciência da competitividade da vida no Brasil”

Para Nuno Belo, é preciso que as empresas portuguesas conheçam a complexidade e competitividade do Brasil.

Todos os dias Nuno Belo, cônsul geral de Portugal no Rio de Janeiro, recebe vários contactos de quadros e empresários portugueses que querem aproveitar as oportunidades que o mercado brasileiro tem para oferecer. “Às vezes até se pode confundir, se vêm à procura de emprego ou se vêm com uma pequena empresa para tentar vencer aqui, ou fazer uma experiência de negócio”, conta, reconhecendo que “começa a haver a consciência de que existe uma geração de portugueses com qualidade e com preparação técnica”.

Nuno Belo lembra que a imagem que os portugueses, que emigraram na década de 60 e 70, deixaram no Rio de Janeiro, foi a de um povo empreendedor. “Todos os restaurantes e negócios de carne são de portugueses que há sessenta, setenta anos estão aqui. Fizeram-se grandes fortunas”. E essa reputação, defende o cônsul, pode ser positiva nesta altura.

“Competitividade é mais relevante que a nacionalidade”

A CEO da EDP Brasil reconhece fúria competitiva no país e necessidade de ter boa reputação empresarial.

Ana Maria Fernandes, CEO da EDP Brasil rejeita tudo o que é discriminatório. É uma mulher de negócios fora do país de origem, mas a gestora nega que a condição de ser portuguesa seja relevante na hora de fazer negócio naquele país. “O que interessa é que seja um competidor relevante e que saiba concorrer com ‘players’ que muitas vezes são maiores e que têm acesso a outras oportunidades que a EDP não tem. No meu sector não acho que ser português seja relevante. Portanto, a palavra competitividade é mais relevante que nacionalidade. Não sinto de forma alguma que pelo facto de ser portuguesa ou não seja mais beneficiada ou mais discriminada”, disse.

Reconhecendo que a EDP Brasil não trabalha com muitas empresas portuguesas, Ana Maria Fernandes admite as dificuldades dos empresários portugueses e relembra as oportunidades. “Aqui a terciarização é uma tendência bastante acentuada e portanto é natural que o número de empresas mais competitivas cá sejam mesmo as brasileiras.

Brasil volta a estar na rota de Portugal mas ainda se faz difícil

Proteccionismo e burocracia atrapalham entrada no país, mas as oportunidades valem o esforço.

“Há uma altura em que temos de passar da afectividade à efectividade”. A frase do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares resume bem o que está na base do “Ano de Portugal no Brasil”, iniciado a 7 de Setembro, e do “Ano do Brasil em Portugal”, que arranca hoje. No observatório promovido pelo Diário Económico no Rio de Janeiro, Miguel Relvas defendeu que esta iniciativa é uma oportunidade para ambos os países e deixou o apelo para que haja um “maior empenhamento” das autoridades brasileiras. Do debate, onde participaram, além do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Horta e Costa, comissário-geral de Portugal para esta iniciativa, José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento, Nuno Belo, cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro, e Ana Maria Fernandes, CEO da EDP Brasil, saiu um conclusão: apesar de uma economia em grande expansão, o Brasil não é um mercado de entrada fácil. Mas a melhor forma de contornar esse obstáculo será construindo uma relação saudável e descomplexada. “O que determinante é que as relações entre Estados são relações de igualdade e nós temos de manter esse princípio”, defendeu o ministro, reconhecendo porém as dificuldades que os empresários portugueses enfrentam de cada vez que procuram “espetar uma lança” do outro lado do oceano e notando que “os brasileiros estiveram mais alheados do que aquilo que seria previsível” em relação ao programa de privatizações que decorre em Portugal.

“É muito difícil, porque qualquer iniciativa brasileira média tem um grande impacto em Portugal e sentimos que o contrário não acontece, não temos de ter receio de o dizer, até porque as relações são saudáveis quando são descomplexadas”, afirmou Relvas, assegurando que “Portugal tem um contributo importante a dar ao Brasil: uma visão mais cosmopolita do mundo”. A experiência dos investidores lusos tem mostrado que entrar no mercado brasileiro pode ser mais difícil do que fazer negócios no continente africano ou até mesmo na China, para onde as exportações portuguesas triplicaram no último ano.

Nuno Belo reconhece as dificuldades – sobretudo ligadas ao proteccionismo -, mas argumenta que a dimensão do mercado brasileiro “justifica um grande esforço” por parte das empresas portuguesas. A estas dificuldades junta-se ainda a obstáculo burocrático: a constituição de uma empresa, impostos, barreiras alfandegárias, aponta Nuno Belo, acrescentando que o Consulado de Portugal no Rio de Janeiro se tem empenhado em “explicar e desmistificar” essas questões.

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