Portugal aposta no gigante brasileiro

[Texto de Margarida Fiúza para o Expresso] Maior país da América do Sul e quinto maior do mundo em área territorial também já é a sexta maior economia, tendo superado o Reino Unido no final de 2011. E espera-se mais do Brasil.

No ano passado, o produto interno bruto (PIB) brasileiro ultrapassou o britânico, ainda que o crescimento da economia tenha abrandado para 2,7%, face aos 7,5% de 2010. E, em março, a Economist Intelligence Unit (EIU) previu mesmo que o Brasil se vai tornar a quinta maior economia do mundo em 2012, à frente de França.

Porém, o índice económico divulgado pelo Banco Central do Brasil, que funciona como uma antecipação do PIB, revelou que a economia brasileira cresceu 0,4% desde o início do ano até maio e 1,27% nos últimos 12 meses. Perante tal cenário, o Banco Central chegou a reduzir a sua previsão de crescimento para o PIB deste ano, de 3,5% para 2,5%. O presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, afirmou entretanto que a economia brasileira voltará a crescer a um ritmo mais acelerado a partir de agora, atingindo os 4% no quarto trimestre deste ano. Segundo ele, o organismo vê “fortes sinais” de que o cenário do primeiro semestre não se repetirá no segundo.

Palco de grande eventos mundiais, como o Campeonato do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, “o Brasil atravessa um ciclo de forte crescimento económico e social”, afirma Pedro Reis, presidente da AICEP-Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. “É um país de língua oficial portuguesa, com uma enorme dimensão de mercado doméstico tanto em termos de população, como de vastidão geográfica pelo que é um mercado pleno de oportunidades para as empresas portuguesas”, continua.

Pedro Reis revela ainda que há um interesse crescente e sustentado dos investidores portugueses pelo Brasil terceiro maior destino do investimento direto português no estrangeiro em 2011, posição que continua a ocupar em junho de 2012 , “como testemunham os recentes investimentos do Grupo Pestana, Grupo Espírito Santo, Galp e EDP”, destaca.

O Brasil também é cada vez mais preferido pelos emigrantes portugueses. Dados do Ministério do Trabalho brasileiro, lançados no final de agosto, revelam que perto de 2400 portugueses obtiveram autorização para trabalhar no Brasil desde o início de 2011. O que coloca os portugueses no 12 lugar na lista das nacionalidades imigrantes no Brasil na primeira metade de 2012.

O BRASIL É O TERCEIRO MAIOR DESTINO DO INVESTIMENTO DIRETO PORTUGUÊS NO ESTRANGEIRO
PIB EM 2011 (BILIÕES DE DÓLARES) 2,324
CRESCIMENTO DO PIB EM 2011 (%) 2,7
PIB PER CAPITA EM 2011 (DÓLARES) 11.900
TAXA DE INFLAÇÃO EM 2011 (%) 6,6
DIVIDA PÚBLICA EM 2011 (% PIB) 54,2
IDE NO BRASIL (MIL MILHÕES DÓLARES) 435
IDE NO EXTERIOR (MIL MILHÕES DÓLARES) 120
PESO DA INDÚSTRIA (%) 27,5
EXPORTAÇÕES (MIL MILHÕES DE DÓLARES) …256 IMPORTAÇÕES
(MIL MILHÕES DE DÓLARES) 219,6
PRODUTOS MAIS EXPORTADOS
Equipamento de transporte, ferro, soja, calçado, café e automóveis
PRODUTOS MAIS IMPORTADOS
Maquinaria, equipamentos elétricos e de transporte, produtos químicos, componentes automóveis, petróleo e material eletrónico

BRASIL
POPULAÇÃO (MILHÕES) 205,7
POPULAÇÃO COM MENOS DE 15 ANOS (%) 26,2
POPULAÇÃO ATIVA (MILHÕES) 104,7
POP. ABAIXO DO LIMIAR DA POBREZA (%) 26
ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA (ANOS) 72,8
TAXA MORTALIDADE INFANTIL (POR MIL) 20,5
TAXA DE FERTILIDADE (POR MULHER) 2,16
ÁREA TOTAL TERRESTRE (KM2) 8.514.877
PRINCIPAIS CIDADES (MILHÕES DE HABITANTES)
São Pau lo 19,96
Rio de Janeiro 11,836
Belo Horizonte 5,736
Porto Alegre 4,034
Brasília (capital) 3,789

FONTES: AICEP E CIA WORLD FACT BOOK

“Vivemos um momento mágico nas relações bilaterais e os governos têm de o aproveitar”, dizia em junho ao Expresso Mário Vilalva, embaixador brasileiro em Portugal, avançando a intenção de aumentar o número de empresas brasileiras em Portugal, que aproveitarão “a descida do valor dos ativos”.

Brasileiros em Portugal
Para Pedro Reis, a hora também deve ser de investimento. “Se atendermos às mais-valias da nossa proximidade cultural e oportunidades de acesso ao mercado europeu, bem como possibilidades de negócios noutros mercados, verifica-se a existência de um forte potencial de cooperação e investimento em diversas áreas, entre as quais se destacam os sectores energético, petroquímico, aeronáutica, indústria naval, biotecnologias, indústria farmacêutica, infraestruturas, construção, transportes, telecomunicações, tecnologias da informação e comunicação e turismo”.

Para o presidente da AICEP, um projeto emblemático e que pode servir de exemplo é o que a Embraer tem vindo a fazer em Portugal. A gigante brasileira de aeronáutica ainda recentemente anunciou o reforço dos seus investimentos em Évora. As duas unidades que inaugurará este mês, uma de estruturas metálicas (partes de asas) e outra de materiais compósitos (componentes para caudas), envolvem um investimento inicial de cerca de 180 milhões e deverá contar com 400 trabalhadores em 2015, ano em que se espera que atinjam a velocidade de cruzeiro.

Um ano cá e lá
É já esta semana que arranca o Ano de Portugal no Brasil e o Ano do Brasil em Portugal. Em julho, no lançamento da iniciativa, Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou que “a conceção do ano de Portugal no Brasil é partilhada, nasce da definição entre os dois estados e trata-se de uma parceria entre empresas. São as empresas que vão garantir um bom ano de Portugal no Brasil”. A abertura oficial começa com Portugal no Brasil, a 7 de setembro, Dia Nacional do Brasil, e vai depois prolongar-se em simultâneo nos dois países até 10 de junho de 2013, Dia de Portugal, com um vasto programa que promove iniciativas culturais e empresariais.

TROCAS PORTUGAL-BRASIL
25%
foi quanto cresceram as exportações Portugal-Brasil entre 2007 e 2011
1561
éo número de empresas portuguesas que exportam para o Brasil
2400
éo total de portugueses que emigraram para o Brasil desde o início de 2011
São Paulo, com perto de 20 milhões de habitantes, é a maior cidade brasileira e o principal centro financeiro do Brasil e da América Latina

TRÊS PERGUNTAS A Pedro Reis
Presidente da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal)

Como têm evoluído as relações comerciais entre Portugal e o Brasil?
De forma muito positiva. De 2007 a 2011, as nossas exportações de bens para aquele país cresceram anualmente a uma média de 25%. As empresas portuguesas exportam hoje mais do dobro do que exportavam em 2007, muito embora tenhamos ainda um longo caminho a percorrer no sentido de equilibrar a nossa balança comercial na exportação de bens, pois é ainda bastante mais aquilo que importamos do que aquilo que exportamos. Entre 2007 e 2011, o Brasil passou de 17 a 10 cliente de Portugal, representando as vendas para este mercado 1,4% do total exportado em 2011 (0,7% em 2007).
O que está a mudar nas exportações deste ano face à atividade em 2011?
Nos primeiros seis meses deste ano as nossas exportações de bens para o Brasil registaram um crescimento homólogo de 9%, o que é um número animador. Quanto às exportações de serviços, regista-se um crescimento de janeiro a junho na ordem dos 10% face ao período homólogo do ano passado, sendo que o saldo da nossa balança nesta categoria das exportações é bastante favorável a Portugal, ou seja, exportamos mais valor em serviços para o Brasil do que aquilo que importamos.
Quais os efeitos da crise financeira nas relações entre ambos os países?
O ano de 2009 foi penalizador nas relações comerciais entre ambos os países, mas foi-o de forma global nas nossas relações económicas internacionais. Os efeitos foram a diminuição das exportações de bens e serviços, bem como a retração ao nível do investimento direto português no Brasil. Já ao nível do investimento do Brasil em Portugal, os números demonstram que este cresceu (em 2008 foi de 81,075 milhões, em 2009 foi de 328,415 milhões tendo em 2010 totalizado 1,8 mil milhões, um valor recorde face ao histórico dos últimos 15 anos). Podemos dizer que a crise financeira teve efeitos no próprio ano da crise, não tendo contaminado os anos subsequentes, que são positivos e representam anos de crescimento no que toca às exportações de bens e serviços.
Mais exportadoras no ano passado
Riberalves, Euronavy e Dielmar são três das mais de 1500 empresas portuguesas que exportam para o Brasil
Há dois anos, havia 1302 empresas portuguesas que exportavam para o Brasil. Em 2011 já eram 1561.

A Riberalves avançou há 15 anos. A investida internacional desta empresa que se dedica à indústria e ao comércio de bacalhau começou no mercado brasileiro. “O Brasil é o segundo maior consumidor de bacalhau do mundo e nós concorremos com os noruegueses naquele mercado, onde temos cerca de 20% de quota”, afirma João Alves, fundador e presidente do grupo Riberalves.

Para ele, o Brasil “é um mercado onde as margens hoje já são idênticas às de Portugal. Mas é mais fácil vender para lá. Porque tem mais escala e dimensão (vendemos em contentores)”.
Com 10 distribuidores no país e cerca de 50 clientes (supermercados e armazenistas), a empresa portuguesa faturou 40 milhões no Brasil em 2011 (em Portugal faturou 60 milhões).

Mário Paiva, presidente do conselho de administração da 100% portuguesa Euronavy Engineering, considera o Brasil “um país extremamente desenvolvido”. Mas “custou-nos quatro anos de trabalho, entre certificações, aprovações e ganhos de confiança”. Antes de entrar, “é preciso analisar muito bem a realidade brasileira”, sublinha. Para o responsável da empresa que presta serviços de engenharia e proteção anticorrosiva, as empresas portuguesas precisam de entrar no mercado brasileiro com diferenciação. “Uma pequena e média empresa (PME) que entre no Brasil a pensar que vai conquistar pelo preço vai fracassar”, vaticina. A Euronavy Engineering tem uma solução de hidrodecapagem “única no mundo”, que faz circular a água proveniente das decapagens por tanques de decantação e por um filtro de lamas que retém os metais pesados. Dos perto de 3 milhões que a empresa estima faturar este ano, 25% a 26% advêm do mercado brasileiro.

Para Pedro Reis, presidente da AICEP-Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, a maior facilidade que as empresas portuguesas encontram no mercado brasileiro é o facto de Portugal e Brasil partilharem a mesma língua e terem um passado e uma história comuns, o que contribui para um clima de negócios favorável. “A isto acresce o facto de ambos representarem, um para o outro, portas naturais em cada um dos blocos económicos que integram”, salienta.

“A língua, o crescimento económico do Brasil e o empenho político e diplomático atual no incremento do relacionamento comercial bilateral” são algumas das facilidades apontadas pela portuguesa Dielmar, que atua no segmento de vestuário de moda masculina há 47 anos.

As exportações da Dielmar para o Brasil iniciaram-se em 2008 e atingiram o seu ponto mais elevado de faturação logo em 2009, com perto de 5 milhões. No ano passado, esta empresa de Castelo Branco faturou cerca de 3,5 milhões com as exportações brasileiras e este ano estima ficar pelos 3 milhões.

Para Ana Paula Rafael, administradora da Dielmar, “devia haver condições especiais entre os dois países ao nível das taxas aduaneiras, das facilidades de investimento e das parcerias comerciais e industriais”. Para ela, é cada vez mais inadmissível pagar taxas na ordem dos 50% e que haja contentores que chegam a ficar retidos na alfândega durante três meses.

Taxas e protecionismo
Pedro Reis identifica que os maiores desafios de entrada no Brasil residem “na área dos custos de contexto, transversalmente associados a alguma burocracia e a alguma complexidade do sistema jurídico (diversidade mesmo entre Estados) e do sistema fiscal (elevados impostos e taxas aduaneiras).

Já a empresária da Dielmar defende que o Brasil devia definir Portugal como parceiro preferencial e baixar a guarda protecionista. E sugere ainda: “Os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Economia podiam também incluir PME nas comitivas lá fora, e não apenas as grandes empresas”.

“Portugal e Brasil representam portas naturais em cada um dos blocos económicos que integram”, afirma Pedro Reis
Mário Paiva, administrador da Euronavy Engineering: a sua empresa tem 25% da faturação no Brasil foto josé ventura.

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