O agente duplo

[Texto de Alexandra Lucas Coelho para o Público]

1. Roubei o título desta crónica ao Sérgio Audi, que o roubou ao Ruy Castro. Estou a escrevê-la porque na quinta-feira teria feito 100 anos Nelson Rodrigues, um daqueles autores fulminantes por antecipação. Podemos nunca o ter lido mas ele já sabe tudo sobre nós.

2. Ruy Castro fez a biografia de Nelson Rodrigues que infelizmente não tenho à mão, neste café da Sumaré, São Paulo, quase a perder um voo. Só trouxe comigo “O Óbvio Ululante”, 420 páginas de confissões de Nelson Rodrigues que se chamavam mesmo “Confissões” quando eram uma crónica diária no “Globo”, entre Dezembro de 1967 e Junho de 1968.

Quanto ao Sérgio (actor, encenador, flautista), conheci-o numa peça sobre o 25 de Abril em que ele actuava, incluindo cantar a “Grândola”. O que não o impediu de encenar Nelson Rodrigues e, além das peças, ter lido as crónicas e a biografia. No momento do nosso reencontro, ontem à noite, eu arrastara o meu “O Óbvio Ululante” do Rio de Janeiro para São Paulo, ao longo de 24 horas, até ao piso de cima do Bar Balcão. Passava da meia-noite, ou seja, oficialmente já era hoje, e esta crónica ainda não desenredara. Nelson Rodrigues apoiou a ditadura brasileira. Nelson Rodrigues teve um filho preso e torturado por combater a ditadura brasileira. Nelson Rodrigues escreveu uma carta pela amnistia dos presos da ditadura brasileira. Como é que Sérgio (paulistano “das esquerdas”, diria o reaccionário Nelson Rodrigues) lia o génio sem ler o reaccionário? Mas essa era a minha pergunta, não a pergunta do Sérgio. O Sérgio não decupava Nelson Rodrigues. Nelson Rodrigues é a sua época e o homem que insubordinou a sua época, agente duplo de si mesmo, activo enquanto houver vivos.

3. O autor já se tornara há muito uma personagem “cercada de frases lapidares por todos os lados” quando iniciou essa crónica no “Globo”. Foi no mês em que nasci, tão longe que os nomes que agora são ruas do Rio de Janeiro eram personagens de Nelson Rodrigues, mesmo que já estivessem mortas. É assim que logo na primeira crónica a rua que sempre me leva do Cosme Velho a Botafogo ganha vida, aliás, morte violenta, quando leio em Nelson Rodrigues que Pinheiro Machado foi tão assassinado como John Kennedy, só que com mais destaque nos jornais brasileiros. Em suma, mal o comecei a ler e o cronista já se apropriou de um pedaço do meu quotidiano carioca. Nunca mais poderei atravessar a Pinheiro Machado sem imaginar Pinheiro Machado de fraque, “um voluptuoso, um lúbrico do poder”.

4. Ainda não me refiz, lança-se o cronista a João Guimarães Rosa, nada menos que João Guimarães Rosa, e nada menos que no momento da sua morte, exagerando a dúvida para o resgatar da veneração, das “admirações abjectas”, até ao ponto “vil” de sentir “uma espécie de satisfação, de euforia” pela sua morte. Nelson Rodrigues escreve, não hesita em escrever: “Ninguém me via, só eu me via. Vim para a janela olhar a noite. Cada um de nós tem o seu momento de pulha. Naquele instante, eu me senti um límpido, translúcido pulha.” A volúpia de o ler é a obscura volúpia de ver alguém a ser mau por nós. Talvez só um católico como ele o pudesse fazer. A confissão de Nelson Rodrigues é a nossa expiação. Absolve-nos.

5. E o cronista não larga Guimarães Rosa, de crónica para crónica, até ao âmago. “Vivo, ele nos agredia e humilhava com a sua monumental presença literária.” O amigo Otto Lara Resende chamara-lhe genial sem nunca lhe ter chamado a ele, Nelson, genial, lamenta Nelson. Claro que “os demais [escritores] continuavam vivíssimos, atropelando”, mas todos esses demais eram menos. “Não fundaram uma língua, nem escreveram ‘A Terceira Margem [do Rio]’ (que o Hélio Pellegrino declamou para mim ao telefone).” Leio e releio este remate, incrédula: porque esta semana mesma, antes de eu pensar sequer no centenário de Nelson Rodrigues, me declamaram “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães Rosa. E quem o fez tem em casa uma entrevista inédita com Nelson Rodrigues. Deus é um acaso.

6. Psicanalista, poeta, mineiro mítico do Rio de Janeiro, Hélio Pellegrino atravessa estas crónicas incólume a qualquer palavra vil. Era uma figura santa: “o” amigo. E, ao contrário de outros nomes nestas crónicas, gente de quem nunca ouvi falar, atravessou os anos até se tornar meu contemporâneo no Rio de Janeiro.

7. Três dias depois da morte de Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues começa a ter pena dele, e nele isso é já amor: nem admite que alguém o compare ao Conselheiro Acácio. Eis a primeira de muitas vénias a Eça de Queirós, seu mestre de todas as horas. Passaram só ou já 44 anos? Difícil de imaginar hoje um cronista brasileiro a citar Eça — ou Camilo — ou Garrett. Mas Nelson Rodrigues escrevia no tempo em que os escritores tinham amigos na Praça Onze e não no Leblon.

8. Bem adiante hei-de encontrar uma frase quase minha 44 anos antes. Nelson Rodrigues já a tinha escrito, como já escrevia por pontos numerados as crónicas. Há qualquer coisa que avança em várias direcções, em vez de só para diante, quando escrevemos assim.

9. Quem me deu este livro foi o meu amigo incólume. E merece saber, caso não se lembre, que, quando perguntavam a Nelson Rodrigues o que tinha lido, ele respondia: “Dostoiévski.” E mais? “Dostoiévski.” E mais? “Dostoiévski.” Não era verdade mas estava certo. E nos intervalos escreveu as tragédias gregas do teatro brasileiro. E escreveu por exemplo: “A inteligência era o de menos. Sempre tive a obsessão da bondade.”

10. Menino humilhado e ofendido da Zona Norte, cabeçudo como os anões de Velázquez, a comer uma banana no recreio enquanto os outros comiam sanduíche de ovo, a levar patadas da professora que lhe chamava sujo, denunciava piolhos e lêndeas. Em criança já aspirava a Cristo, o crucificado. Em adulto tratava Freud como um veterinário, coisa de bezerros, o instinto. Só sofrer mais engrandecia. Só o casal eterno era amor. E o sexo, para operários. Totalitário como todos os moralistas.

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