LER publica texto a propósito do centenário de Nelson Rodrigues

A Casa da América Latina está a preparar para entre 30 de setembro e 3 de outubro uma oficina de teatro baseada na obra de Nelson Rodrigues. Com este evento assinalaremos o centenário do nascimento do dramaturgo brasileiro.

Na mais recente edição da revista LER está incluído um texto de Bruno Vieira Amaral sobre o centenário do Anjo Pornográfico. A LER disponibilizou-nos gentilmente um excerto do texto:

Se era um repórter das contradições dos seus personagens, Nelson Rodrigues não ignorava decerto as suas próprias contradições. «A minha ficção é uma coisa. E eu posso ser outra», dizia. As suas contradições são as de Raskolnikoff. Dizia-se um Raskolnikoff sem instintos homicidas e alegrava-se por Dostoiévski ter posto o seu personagem mais célebre a ajoelhar-se perante Sónia, numa cena patética e sentimental. Segundo o cronista Pedro Lomba a «cabeça de Nelson Rodrigues fervilhava de contradição, consigo mesmo e com o mundo. Porque a verdade é que somos capazes de tudo. Do amor, da morte, da pureza, da bestialidade». Era o anjo pornográfico, título da biografia definitiva de Ruy Castro: «Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. [Curiosamente, é através do buraco da fechadura que Zózimo, o marido pusilânime de Engraçadinha, vê pela primeira vez a nudez frontal da mulher.]. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.» A vida e a profissão de repórter policial, com que se iniciou no jornalismo, deram-lhe muita matéria para espreitar e muitas oportunidades (trágicas) para se contradizer. A obsessão com o suicídio teve origem em histórias ouvidas na infância e que contaminaram a sua imaginação e sensibilidade. Mas também a vida familiar, com a sucessão de tragédias e reveses, alimentou o ficcionista das contradições humanas e o homem contraditório. A 26 de dezembro de 1929, Sylvia Seraphim, uma senhora da alta sociedade cuja separação do marido merecera honras de primeira página no jornal Crítica, propriedade de Mário Rodrigues, pai do escritor, dirigiu-se à redação. O escândalo abalara a sociedade carioca e Sylvia queria vingança. Mário não estava no jornal. O tiro que lhe estava destinado acabou por matar um dos filhos, Roberto Rodrigues, artista plástico e ídolo da família. Pouco mais de dois meses depois, Mário morreu, vítima de uma trombose. Esta sequência de eventos deixou uma marca profunda na sensibilidade de Nelson e pode-se dizer, com o devido exagero rodriguiano, que o sangue de Roberto tinge toda a sua obra. Outro episódio decisivo ocorreu muitos anos depois, na década de 70. O filho de Nelson Rodrigues, Nelsinho, era membro de uma organização revolucionária de guerrilha urbana, o MR-8. Viveu dois anos na clandestinidade antes de ser preso em 1972. O pai, o eterno anticomunista, que dizia que «a experiência comunista é o que há de pior nos últimos trinta milhões de anos», viu-se entre a espada das suas ideias e a parede do amor ao filho. Ele, que sempre negara a utilização de métodos de tortura pelo regime militar, sofreu a dor terrível de ouvir da boca do próprio filho que os presos políticos eram submetidos a violentas sessões de tortura. Em 1979, um ano antes de morrer, em entrevista ao jornal Última Hora, Nelson Rodrigues dirigia-se diretamente ao Presidente do Brasil, João Batista Figueiredo: «Solte esses rapazes, Figueiredo. Meia dúzia de obras gigantescas não colocam um presidente na História. Você é o único brasileiro que tem essa oportunidade na mão. Solte esses moços, Figueiredo. Por favor, Figueiredo, solte meu filho.» Como escreveu o seu biógrafo, a vida de Nelson Rodrigues, com tantos acasos retorcidos, chega a ser mais impressionante do que qualquer invenção literária do escritor.

Saímos de Nelson Rodrigues, da sua obra e da sua biografia, com a sensação incómoda de termos testemunhado a miséria das nossas abjeções, os terrores primitivos da nossa condição, a vil tristeza de um animal que deseja. Saímos, por isso, purificados, com a cicatriz de um golpe que nos fere profundamente e, ao mesmo tempo, nos deixa lúcidos para além de qualquer possibilidade de ilusão ou utopia. Sentimos que não é possível escavar mais fundo, que já chegámos à nudez absoluta do humano, na sua miséria, abjeção e glória. Nos livros de Nelson reencontramos, sem rodeios ou literatices, o que um crítico chamou de «certa selvagem beleza da vida», sabendo que é nessa fonte de pureza primordial que bebemos os nossos amores e os nossos pecados.

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