Crítica do filme Gladys no Ipsilon

[Texto do Ipsilon sobre o filme Gladys, que será exibido pela Fundação Gulbenkian no âmbito do evento Próximo Futuro]

Gladys traz um fato-de-treino roxo, uma bolsa à cintura, um trolley e o seu síndrome de Asperger para o jantar de Reis em casa do irmão e da irmã que não vê há 23 anos e dos três sobrinhos que nunca conheceu — uma casa de Santiago do Chile onde está tudo a postos para o jantar mais importante do ano (a toalha na mesa, o champanhe nos copos, as prendas na árvore) mas que mesmo assim desabará apocalipticamente ao mínimo sinal de quem há um dedo estranho encostado à campainha.

Um pai, duas tias, três irmãos — não é exactamente a família de Elisa Zulueta (Santiago do Chile, 1981), a actriz, dramaturga e encenadora por trás de Gladys (amanhã e depois no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, em Lisboa, às 22h), mas podia ser. “Escrevo sobre o que conheço e no Chile a família continua a ser uma instituição poderosa — vivemos até tarde com os pais, às vezes com os avós. Não vou ficar fechada dentro da família para sempre, mas gosto de a usar como amostra do que se passa lá fora. E a verdade é que os espectadores se identificaram totalmente com as personagens, mesmo com as menos amáveis — naquele pai, naquela tia, reconheceram os seus pais, as suas mães, os seus avós”, diz ao Ípsilon no curtíssimo intervalo que as filmagens da nova telenovela das 14h30, Dama y Obrero, lhe deixam para o almoço.

Gladys, dizíamos, não é exactamente a família de Elisa Zulueta — é o país em que ela cresceu, um país que prefere mandar um passado monstruoso para os EUA, com um bilhete só de ida, do que ter de se sentar à mesa com ele todas as noites, incluindo a de Reis. Mas também é o país em que Elisa Zulueta se tornou adulta, e em que todo o teatro será a doer, ou não será teatro (e em que, mesmo a doer, é teatro para oito meses, dez mil pessoas e quatro prémios Altazor, números de Gladys).

À mesa desta casa, o teatro da Noite de Reis, cuidadosamente encenado para Ander, o pai viúvo, pela irmã que lhe criou os filhos (Ian, Lucía e Uxue, que como a tia Gladys tem síndrome de Asperger), é sabotado pelo filho mais velho — é ele que encontra a tia que nunca existiu na Internet e que lhe paga o bilhete de volta ao Chile, como um presente (mortalmente envenenado) para toda a família. Nisso, concorda Elisa, Gladys é bem o espelho de um país dividido ao meio: “a luta de duas gerações, a dos que enfrentam (a minha) e a dos que fogem (a dos meus pais)”, mas uma luta sem juízos de valor. “Não posso condenar a geração dos meus pais. Foi uma geração que viveu com a ditatura, com medo, sob uma opressão total, sem poder dar um passo em falso — e sim, que varreu para debaixo do tapete os piores segredos familiares, respondendo a uma educação repressiva. Nascer em democracia neste país fez toda a diferença. A minha geração é mais aberta — e a que veio a seguir é mais aberta ainda. É a geração que está a sair à rua, para exigir mudanças na educaçãoe agora também o fim da discriminação dos homossexuais”, argumenta.

Desenterrar os mortos

Elisa Zulueta também tem saído à rua — primeiro com Pérez (2009), depois com Gladys (2011), a seguir com Milocho, que estreará em Agosto. Não se vê a fazer um teatro político como o de Guillermo Calderón — de quem foi assistente de encenação em Neva — ou o de Alfredo Castro, que passaram antes dela pelo programa Próximo Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian com espectáculos sobre os inabitáveis anos da ditadura militar. Mas no Chile, admite, tudo é político, mesmo o que não parece: “O teatro chileno é muito chileno: está muito preso ao que fomos e ao que somos. A mim interessa-me mais o que somos, e por isso quis falar de outro tipo de exílio, um exílio dentro da família, supostamente o núcleo que integra e que compreende, mas que aqui discrimina e exclui, para poder contar de si uma bela história muito mal contada”.

Tal como o exílio, a discriminação também é uma história chilena muito mal contada: “Este é um país que discrimina imenso — os homossexuais, os que são de outra classe, os que não têm dinheiro, os que não têm poder. Há três meses, um rapaz de 24 anos morreu depois de ter sido espancado por ser homossexual: rasgaram-lhe a pele, cortaram-lhe uma orelha, queimaram-no com cigarros”, conta Elisa. Gladys também exibe esse mal-estar chileno: Ian é o filho mais velho que “nunca mais casa”, Gladys é a tia que teve de se ir embora para os EUA porque “tinha uma amiga”. Continua Elisa: “É um tema que se tornou muito importante no debate público, que obviamente está dominado por uma geração muito obtusa e por um poder político que não quer mudanças. Mas já que não ocorre às autoridades fazer o que é necessário para que o Chile deixe de ser um dos países mais desiguais do mundo, as pessoas finalmente decidiram exigilo”, continua Elisa.

É o que faz Ian nesta Noite de Reis em casa de uma família chilena normal, que como todas as famílias chilenas normais “enterra os seus mortos demasiado lá em baixo”, não vá dar-se o caso de alguém lembrar os crimes que cometeram contra alguém, ou que alguém cometeu contra eles. Desenterrada do jardim zoológico de San Diego onde ganha dinheiro a vender t-shirts, Gladys regressa com o seu fato-de-treino roxo, a sua bolsa à cintura e o seu síndrome de Asperger para contar a parte em que a história da família se torna feia, a parte em que finalmente se percebe porque é que não há fotografias dela em casa, porque é que ninguém lhe telefona quando faz anos, porque é que se foi dali.

E assim termina a infância feliz dos contos — os chilenos e os do resto do mundo.

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